Florianópolis,
de 2009

Edição: 37 - Ano VI
Junho/Julho 2010
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ZURY MACHADO
por
Mauro Julio Amorim
Data: Dezembro/Janeiro 2010

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Zury Machado, 60 anos de história
da sociedade catarinense
(foto Joyce Mussi)

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Ao longo da vida, Zury pousou
para grandes fotógrafos

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Todo o acervo de Zury Machado
está hoje no Centro Cultural Ruth
Hoepcke da Silva

O mais conhecido e famoso colunista social de Santa Catarina, com mais de meio século de contínua atividade, acaba de lançar um livro de memórias, narrando não só uma vida inteira dedicada ao registro das atividades sociais catarinenses, como a sua própria vida.

Um homem profundamente educado e civilizado, ZURY MACHADO soube se fazer amigo de figuras das mais expressivas da vida nacional, não só recebendo-as em Florianópolis, como sendo igualmente recebido e festejado, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, cujas rodas sociais freqüenta com assiduidade.

Nesta edição de fim de ano, o Floripa Total presta a sua homenagem a Zury Machado, reconhecendo e aplaudindo o seu trabalho de uma vida inteira, dedicada ao colunismo social, via entre- vista concedida ao jornalista Mauro Júlio Amorim.

FLORIPA TOTAL – Zury, juntamente com os Bayer e os Gallotti, você é o tijucano mais conhecido e famoso?
ZURY MACHADO ( risos ) - Não. Eles foram sempre os mais famosos, porque eram inclusive ricos. A minha família era muito pobre e simples. Eu era o tijucano pobre. Meu pai era um sapateiro e, quando ele acabava o conserto dos sapatos, eu engraxava e levava para os fregueses... e ganhava também as gorjetas, é claro.
FT - Um homem metódico e organizado como você, deve ter um completo arquivo de tudo o que escreveu e participou. Na verdade, quantos anos foram de atividade como colunista social?
ZM- Olhe, praticamente sessenta anos.
FT - E você tem tudo arquivado?
ZM - Aqui em casa não tenho mais nada. As meninas do Dr. Aderbal, a Anita e a Sílvia, pediram que eu deixasse todo o meu trabalho no acervo do Centro Cultural que elas estão montando, na casa da família. Isso para mim foi uma honra, além de preservar tudo o que fiz. Caso contrário, eu teria de jogar tudo fora, pela impossibilidade total de guardar tudo. Isso, sem falar que muita coisa foi perdida quando do incêndio do jornal O Estado. Eram caixas e caixas, com todas as colunas guardadas no depósito. O que sobrou, foi catalogado e agora está guardado. Foi desse arquivo, que o Luiz Henrique Tancredo se valeu para reconstruir tudo e para publicar o livro, que foi patrocinado pelo Costão do Santinho, pelo Fernando Marcondes de Matos, que é uma pessoa que eu adoro.
FT - Disseram-me que ficou muito bom.
ZM - Pois é. Na verdade, eu não queria, não. Estou mais velho, mais cansado e, nessa idade, a gente quer é sossego. Mas sou uma pessoa pública e não posso me negar. A capa é uma foto da Joyce Mussi, que é uma excelente fotógrafa, que contou, também, com o talento do George Alberto Peixoto, o “Picolé”.
FT - Qual foi a grande época da sociedade catarinense e nacional? Onde estão as suas melhores recordações?
ZM - Difícil, muito difícil dizer. Tenho receio de ser injusto, se destacar uma ou outra época. Todas tiveram os seus encantos. Hoje, é claro que tudo mudou, os tempos são outros, mas durante todo o tempo que eu escrevi, tudo foi muito bom. Fui muito feliz. Só encontrei pessoas boas, só fiz bons amigos. Praticamente conheci boa parte do mundo, sempre a convite e sempre muito bem recebido.
FT - Mas se dividirmos por décadas - de vinte, de trinta, quarenta, cinqüenta... - qual foi a boa década?
ZM – Ah, os anos dourados, certamente. Foram anos maravilhosos, cheios de encantamento e de magia. Depois, nos anos oitenta, começou-se a notar uma mudança, as coisas começaram a mudar. Os bailes de debutantes continuaram a acontecer, mas já não eram a mesma coisa, embora as festas sempre fossem muito bonitas. As meninas não tinham mais interesse. Elas começaram a pensar em viagens, em cursos no exterior... Para os pais também era mais vantajoso do que um debut, que sempre foi muito caro. Então, eu posso dizer a você que os anos dourados foram realmente dourados, não só aqui, como em todo o Brasil. E, decerto, no mundo todo. No Rio, por exemplo, que sempre foi o modelo para todo o País, aconteciam grandes e luxuosas festas, no Palácio Guanabara, no Copacabana Palace... Eram acontecimentos nacionais e até internacionais. Mas tudo isso acabou. A sociedade é outra, embora ainda existam mulheres lindas e muito bem vestidas
FT - E a nossa mulher catarinense, o que dizer dela?
ZM - A nossa mulher catarinense sempre fez muito sucesso em qualquer lugar. Sempre foi muito elegante e sempre se destacou. Nós temos o exemplo da Layla Freyesleben, que fez um enorme sucesso, sucesso nacional, quando foi Miss Bangu. Ela foi, inclusive, convidada para fazer cinema e tudo, mas não aceitou. Às vezes eu brinco com o filho dela, o André, que também é um rapaz muito bonito: - Ah, você não quis aproveitar a trilha deixada pela sua mãe!... Ele sorri e diz que os tempos são outros. Mas ela estava no jantar, o que me deixou muito feliz.
FT - Hoje, depois de tantos anos, você conseguiria apontar os maiores destaques da vida social brasileira, e da catarinense e da Ilha? Poderia dizer o que mais - e quem mais - se destacou de verdade, não só em Florianópolis, como no Estado e no Brasil?
ZM - Dona Ruth Hoepcke da Silva. Foi uma grande dama, um exemplo formidável para todo mundo. A elegância é um momento, mas existem, sim, pessoas - como a dona Ruth - que foram elegantes todo o tempo, da manhã à noite.
FT - Nós dois temos uma grande amiga comum, que é uma mulher extraordinária...
ZM - Maravilhosa!!! Uma mulher que foi e continua sendo linda! Eu sempre disse que a Cilóca Luz pode vestir um saco de aniagem, que continuará linda e elegante. Hercília Catharina da Luz, é outro exemplo de criatura excepcional. Uma grande e leal amiga! O livro traz uma foto ela, de corpo inteiro, usando um vestido criado pelo costureiro Lenzi, que a vestiu sempre.
FT - Falando em pessoas bonitas e elegantes, você tem saudades dos tempos dos Mayrink Veiga, dos Souza Campos...
ZM – Sim, muitas. Eu trabalhei algum tempo com o Ibrahim Sued, na Rádio Nacional, na época da Bangu. Nós tínhamos um programa na Rádio Nacional, que dominava o Brasil inteiro. Quando eu estava no Rio, onde ia muito, nós fazíamos o programa ao vivo. Quando não, o Ribeiro Martins lia tanto a minha, como a coluna do Ibrahim, além de mais dois ou três colunistas de outros estados. Mas eram poucos. Os principais eram mesmo o Ibrahim e eu. Foi daí a minha amizade com várias pessoas muito famosas, como a Lourdes Catão, por exemplo, que tinha uma casa fantástica, aqui em Imbituba e que nos convidava sempre - a Myrian, o Paulico, a Eliana, Leonida... Passávamos fins de semana maravilhosos.
FT - As pessoas de hoje – a nova geração, por exemplo – ouve muito falar em tecidos Bangu, mas não sabe exatamente o que foi. Você pode explicar o que foi, em termos de beleza e de qualidade?
ZM - Tecido Bangu era um algodão, uma coisa bem brasileira. A fábrica era em Bangu, subúrbio do Rio, de propriedade do Dr. Joaquim Guilherme da Silveira, que era um homem riquíssimo e que começou a exportar esses tecidos, que mais pareciam uma seda. Foi a fábrica que criou os desfiles e elegia as misses elegantes Bangu, no Brasil todo. Todos os estados mandavam representantes para o Rio e as moças iam para lá e ficavam hospedadas no Copacabana Palace, enquanto eram confeccionados os vestidos para os desfiles, com modelos do costureiro José Ronaldo. Eu representava Santa Catarina, o Paraná e o Rio Grande do Sul. Foi assim que eu viajei muito e fiquei muito conhecido nesses lugares. Todas essas grandes festas eram sempre em benefício de alguma entidade.
FT - A jovem catarinense sempre se destacou?
ZM - Muito! Sempre foram moças bonitas e elegantes. Marília Peluso, por exemplo, também foi Miss Elegante Bangu. Ela também está no livro, numa foto comigo.
FT - Zury, hoje não existe mais tanto dinheiro ou as pessoas estão se preservando mais, sem muita necessidade de aparecer?
ZM – De aparecer todos gostam. O que deve estar existindo mais é prudência, segurança. Não se sabe o que vai acontecer amanhã. Então, eu acho que as pessoas estão mais cuidadosas com os gastos. Quem lê jornais e vê televisão, sabe o que anda acontecendo em termos de violência, de desgraças. Está demais. Então, é natural que as pessoas fiquem preocupadas e mais precavidas, e que se afastem mais. Os grandes casamentos, por exemplo, continuam existindo e são, às vezes, festas magníficas. Os costureiros continuam trabalhando, como o Lenzi, o Gessony....
FT - Mas ainda existe gente que é capaz de qualquer coisa para aparecer?
ZM – Olha, Mauro, comigo sinceramente nunca fizeram isso, porque eu não dava chance. Quando alguém se aproximava com uma conversa diferente, dando a entender que poderia pagar pela notícia, eu imediatamente me afastava.
FT - Mas aconteceu alguma vez?!
ZM – ( RISOS ) Já, sim. Uma vez botaram um carro zero na frente do meu apartamento, para que eu indicasse uma moça daqui, no Rio de Janeiro, num baile internacional. Eu respondi que não poderia fazer isso de jeito nenhum. Eu não poderia aceitar, depois de – por exemplo – ter levado Lúcia Di Vincenzi para o baile internacional, onde ela foi consagrada entre todas as representantes até do exterior. Outra menina linda, que também fez muito sucesso foi a Yara Kasting. Também era lindíssima. E mereciam a indicação, sem favor algum. Não precisariam pagar para brilhar.
FT - Você também conheceu e até freqüentou casas de gente muito famosa do meio artístico, como a Elizeth Cardoso, por exemplo, com quem a Neide Maria morava. Quem mais foi seu amigo, dentre os artistas?
ZM – Mais um que posso destacar foi o Cyl Farney, então o maior galã do cinema nacional. Foi uma criatura adorável e de uma gentileza extrema, sempre pronto a nos receber em sua própria casa.
FT - E no meio político?
ZM - Nunca freqüentei o meio político. É claro que conhecia bem os políticos e sempre fui muito bem tratado por eles, mas sem um envolvimento maior.
FT - Embora não nascido em Florianópolis, você é um ilhéu dos mais fiéis. Como você vê a capital catarinense? O que ela tem de melhor e de pior?
ZM - Eu acho Florianópolis uma maravilha! Um dos lugares mais bonitos do mundo. Gosto demais desta cidade. Aliás, sou cidadão honorário daqui. Como tudo, às vezes está melhor, às vezes pior, mas hoje já é uma grande cidade, com todos os defeitos das grandes cidades. Movimento demais, carros demais, gente demais, enfim. Não temos mais lugar para tanta gente que quer viver aqui.
FT - No caso de um dia desistir de viver aqui, que cidade você escolheria para morar? Por que?
ZM - Ah, eu moraria, com muito prazer, em Nova York. Tenho paixão por Nova York. Fui muitas vezes lá, principalmente nesta época, porque é frio, mas é um frio suportável. É uma cidade de uma beleza mágica, tanto na decoração, quanto nas lojas, nos grandes magazines. Enfim, é festa demais!
FT - Finalmente, se tivesse de voltar a viver, o que você faria de novo e o que não faria jamais?
ZM - Eu tive uma vida muito boa. É claro que teve espinhos, como toda vida, mas isso faz parte. Mas eu soube contornar e cortar esses espinhos. Tanto que, até hoje, estou recebendo homenagens, sinal de que não morri, que continuo fazendo parte da Cidade. Tanto é que você está aqui, entrevistando-me para o seu jornal, aos meus 87 anos.
FT - Você não tem problemas de revelar a sua idade?
ZM - ( RISOS ) E nem poderia ter! Nunca tive problemas para revelar a minha idade. Todo mundo sempre soube; as minhas ex-debutantes e as filhas delas. Tudo o que eu fiz, procurei fazer sempre com a máxima elegância e bom senso. Foi tudo tão bom e tão agradável, graças ao bom Deus, que eu repetiria sem hesitar.
FT - Parabéns pelo livro e obrigado pela entrevista.
ZM - Obrigado a você e ao Floripa Total pela gentileza da entrevista. Ao seu jornal e todos os leitores, um Feliz Natal e um ano novo maravilhoso!



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