- Linda camisa, Fernandinho!
- Gostou da cor Reginaldo?
- Da cor verdadeiramente não, mas do estilo!
- Estilo, que estilo?
- A gola em formato de asa delta e as mangas curtas com este fino acabamento dobrado.
- Tu estás virando boiola? Desde quando te interessas por estilo de camisa?
- Na verdade a minha mulher comprou uma lojinha de roupas e desde então o assunto lá em casa é só este.
- Ah, entendi! Então agora passaste a “urubuservar” as roupas dos outros. Saí prá lá, ô ave agourenta!
- Mas não estou achando a tua roupa feia. Como falei, gostei do estilo.
- Do estilo até pode ser, mas já a cor, achaste uma porcaria. Não tenho razão?
- Bem, por uma particularidade minha, não gosto do amarelo. Desculpe se isto te deixou chateado.
- Também não vamos exagerar, chateado já é demais. O que fiquei foi um pouco inseguro quanto a minha aparência.
- A tua aparência está ótima. O amarelo é só um detalhe.
- Mas por que não gostas do amarelo?
- Sei lá, acho que é algum trauma de infância do qual não me lembro. É uma coisa que vem lá de dentro.
- Já procuraste um médico?
- Ô Fernandinho, também não vamos exagerar! Não é caso para tanto.
- Ah, agora me lembrei de uma coisa: já sei por que tu não gostas do amarelo!
- Gostaria até de saber...
- Tu não és da Costeira do Pirajubaé?
- Sim, nasci lá.
- E quando eras pequeno nunca te chamaram de “Amarelo da Costera”?
- Chamaram sim, e não era pouco. Eu até fiquei acostumado.
- Podes até teres te acostumado, mas acredito que aí está a explicação.
- Explicação do quê?
- A verdadeira razão para teres criado o tal trauma do amarelo.
- Sabes que nunca tinha pensado nisso!
- Pois pensa bem e depois me diz se não tenho razão.
- Rapaz, gostei da tua linha de raciocínio. Vou até te oferecer um brinde.
- Brinde, que brinde?
- Uma gelada é claro! Vamos brindar com uma das coisas que mais gosto na vida.
- Cerveja? Agora não entendi mais nada!
- Não entendeste o quê? Fiquei contente com a tua dedução e acho que esta é uma forma de te recompensar. Claro que também vou tomar um pouquinho da recompensa.
- O que não entendi é que tendo tu trauma do amarelo, como podes gostar de cerveja? Tirando a espuma, a cerveja é uma concentração total de amarelo!
- Pode até ser, mas a compensação que ela traz é insuperável.
- Compensação, que compensação?
- O prazer de matar o amarelo.
- Está ficando maluco? Como assim, matar o amarelo?
- Quando boto a cerveja na boca o amarelo desaparece, não é isso?
- Ah, entendi. Estás fazendo o amarelo desaparecer e assim matando o mesmo.
- Mas não só isso! Ainda tem a parte melhor: o prazer de impedir que ele nasça de novo.
- Agora deu pra mim! Acho que estás ficando biruta mesmo. Que história é esta de impedir que o amarelo nasça novamente?
- É só caprichar na quantidade do líquido amarelo morto na entrada, que o da saída também vai desaparecendo.
- Estás te referindo ao xixi?
- Óbvio né Fernandinho! Ele vai clareando... clareando... clareando... e depois da terceira latinha de cerveja, de amarelo nojento, ele passa a nascer branquinho branquinho. Adeus cor maldita! Que coisa maravilhosa!