Comentários de Héctor R. Leis & Selvino J. Assmann
Neste ano cumprem-se duzentos anos desde o nascimento de Charles Robert Darwin (1809-1882) e cento e cinquenta da publicação de seu livro "A Origem das Espécies" (1859). Darwin talvez seja o cientista que mais impactou a mentalidade do homem contemporâneo. A revolução darwiniana colocou em cena um debate cuja importância é impossível subestimar. Não interessa aqui fazer uma resenha de sua obra – sobre a qual, aliás, por conta dos aniversários mencionados, o leitor interessado poderá encontrar nas livrarias numerosos lançamentos de livros – e, muito menos, entrar no debate tantas vezes preconceituoso, de ambos os lados, entre darwinismo e religião. Interessa-nos aqui registrar algo menos visível no debate científico: as dificuldades que as ciências humanas têm ainda hoje para incorporar a mensagem científica de Darwin.
As ciências humanas continuam falando, de modo geral, como se fossem donas exclusivas dos seres humanos enquanto objetos de pesquisa, e frequentemente agem como se dessem cabalmente conta da realidade humana. Mas elas conhecem, em todo caso, os cidadãos e os diversos setores sociais que integram a sociedade. De fato, quando se pede mais educação, mais políticas públicas em geral, se está renunciando ao desenvolvimento dos seres humanos concretos, identificando-os apenas com suas capacidades socialmente valiosas. O restante da personalidade fica de fora.
O que está em jogo é uma tríplice possibilidade de interpretar o que nós, seres humanos, somos: somos seres apenas biológicos, e neste caso, tudo o que somos se reduz ao desenvolvimento da natureza física como tal? Somos seres totalmente artificiais, construídos de formas diferentes de acordo com o tempo e o lugar em que existimos, sendo, neste caso, totalmente destruída ou secundária a dimensão biológica da existência humana? Ou somos seres ao mesmo tempo biológicos e artificiais? Assim, não pesquisar, por exemplo, a relação entre a expansão da massificante educação atual e a expansão ou não dos méritos, em geral, e dos diversos tipos de inteligência existentes nos seres humanos (não apenas a lógico-matemática), em particular, é continuar pensando a evolução da humanidade em termos reducionistas. Que a educação influi fortemente no desenvolvimento humano é uma verdade evidente; mas, embora não seja tão evidente, não é menos verdade que existe um desenvolvimento hereditariamente condicionado que sugere caminhos diversos para a realização da felicidade humana e que, em geral, essa mesma educação massificante ignora. Fora das ciências humanas não parece ser tão difícil aceitar que os seres humanos não são iguais, nem do ponto de vista social nem do natural, e que são tanto um resultado diferenciado de seu ambiente e educação, como de seus fatores hereditários.
Pensadores realistas sabem que a política não deve adaptar-se à racionalidade humana, mas à natureza humana; que as instituições sociais e políticas existem para os seres humanos, não vice-versa. Portanto, se queremos instituições que funcionem devemos colocá-las em sintonia com a natureza humana. Mas como julgar as instituições existentes ou imaginar novas se não conhecemos a natureza humana, ou se, como fazem em geral as ciências humanas, ignoramos ou negamos que ela existe? Por mais incrível que pareça, os aspectos centrais de nossos princípios e instituições políticos e sociais atuais foram definidos, entre os séculos XVII e XIX, por um amplo espectro de grandes pensadores (Hobbes, Locke, Rousseau, Kant, Montesquieu, Hegel, Marx, Stuart Mill etc.) que apoiavam seus trabalhos nas diversas concepções de natureza humana disponíveis na época. Mesmo que a maioria destes autores apregoe a necessidade de derrotar a natureza humana para que tenhamos civilização - ao contrário de um Aristóteles ou dos estóicos antigos, para quem ser feliz exige o cumprimento de leis da natureza - eles admitem que há uma natureza humana, pelo menos do ponto de vista heurístico. De qualquer modo, isso significa um belo qüiproquó, já que as ciências humanas, de modo geral, continuam atribuindo legitimidade às instituições imaginadas por autores que, de acordo com a ciência contemporânea, apresentam concepções quase mitológicas da natureza humana. E aqui surge uma boa pergunta e importante pergunta: será que, com os conhecimentos herdados da revolução biológica darwiniana, não poderíamos e deveríamos repensar nossas idéias tradicionais sobre os indivíduos, a sociedade, o Estado e a democracia, por exemplo?
As novas idéias e as pesquisas biológicas (em um espectro que cobre da ecologia dos grandes ecossistemas até a bioneurologia do cérebro humano, passando pela engenharia genética) convocam-nos a repensar nossas instituições, tanto quanto convocam as ciências humanas a dedicarem uma boa parte de seus esforços ao trabalho interdisciplinar, especialmente com a biologia. Darwin colocou a questão da natureza humana no centro do cenário já no século XIX, mas ainda no século XXI isto não parece ter sido devidamente registrado. A recusa a entrar com força total no debate aberto pela revolução biológica confirmaria esta hipótese, na medida em que suas conseqüências para a evolução da humanidade são dramáticas.
A LUTA ENCARNIÇADA PELA EXISTÊNCIA
Charles Darwin
As espécies pertencendo ao mesmo gênero têm quase sempre, posto que haja muitas exceções a esta regra, hábitos e constituição muito parecidos; a luta entre estas espécies é pois muito mais renhida, se se encontram colocadas em concorrência umas com as outras, do que se a luta se travar entre espécies pertencendo a gêneros distintos. A extensão recente que tem tomado, em certas partes dos Estados Unidos, uma espécie de andorinha que causou a extinção de uma outra espécie, oferece-nos um exemplo deste fato. O desenvolvimento do abelha-ruco trouxe, em certas partes da Escócia, a raridade crescente do tordo comum. Quantas vezes temos ouvido dizer que uma espécie de rato expulsa outra diante de si nos mais diversos climas! Na Rússia, a pequena barata da Ásia leva diante de si a sua grande congênere. Na Austrália, a abelha que importamos extermina rapidamente a pequena abelha indígena, desprovida de aguilhão. Uma espécie de mostarda suplanta uma outra, e assim sucessivamente. Podemos conceber, ainda que pouco, como se faz que a concorrência seja mais viva entre as formas aliadas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza; mas é muito provável que, em alguns casos, pudéssemos indicar as razões exatas da vitória obtida por uma espécie sobre outra na grande batalha da vida.
As notas que acabamos de dar conduzem a um corolário da mais alta importância, isto é, que a conformação de cada ser organizado está em relação, nos pontos mais essenciais e algumas vezes contudo mais ocultos, com a de todos os seres organizados com os quais se encontra em concorrência para a sua alimentação e habitação, e com a de todos aqueles que lhe servem de presa ou contra os quais tem de defender-se. A conformação dos dentes e das garras do tigre, a das patas e dos ganchos do parasita que se prende aos pelos do tigre, oferece uma confirmação evidente desta lei. Mas as admiráveis sementes emplumadas da chicória silvestre e as patas achatadas e franjadas dos coleópteros aquáticos não parecem estar em relação com o ar e com a água. Contudo, a vantagem apresentada pelas sementes emplumadas encontra-se, sem dúvida, em relação direta com o solo já guarnecido de outras plantas de maneira que as sementes possam distribuir-se num grande espaço e cair sobre um terreno que ainda não está ocupado. No coleóptero aquático, a estrutura das pernas, tão admiravelmente adaptada para que possa mergulhar, permite-lhe combater com outros insetos aquáticos para procurar a sua presa, ou para escapar aos ataques de outros animais.
A substância nutritiva depositada nas sementes de muitas destas plantas parece, à primeira vista, não apresentar espécie alguma de relação com outras plantas. Mas o crescimento vigoroso das novas plantas provindo destas sementes, as ervilhas e os feijões, por exemplo, quando se semeiam por entre outras gramíneas, parece indicar que a principal vantagem desta substância é favorecer o crescimento da sementeira, na luta que tem de sustentar com as outras plantas que crescem em volta de si.
Porque se não multiplica cada forma de planta em toda a extensão da sua região natural até dobrar ou quadruplicar o número dos seus representantes? Sabemos perfeitamente que pode suportar um pouco mais de calor ou de frio, um pouco mais de umidade ou de secura, porque sabemos que habita regiões mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Este exemplo demonstra-nos que, se desejarmos dar a uma planta um meio de acrescentar o número dos seus representantes, é necessário pô-la em condições de vencer os seus concorrentes e de obstar aos ataques dos animais que se nutrem dela. Nos limites geográficos do seu habitat, uma alteração de constituição, em relação com o clima, seria de uma certa vantagem; mas temos toda a razão para julgar que algumas plantas ou alguns animais somente se afastam para longe por serem exclusivamente destruídos pelo rigor do clima. É somente nos confins extremos da vida, nas regiões árticas, ou nos limites de um deserto absoluto, que cessa a concorrência. Quando a terra seja muito fria e muito seca, não haverá menos concorrência entre algumas espécies ou entre indivíduos da mesma espécie, para ocupar os lugares mais quentes ou mais úmidos.
Disto resulta que as condições de existência de uma planta ou de um animal colocado em novo país, em meio de novos competidores, devem modificar-se de uma maneira essencial, posto que o clima seja perfeitamente idêntico ao do seu antigo habitat. Se se deseja que o número dos seus representantes cresça na nova pátria, é necessário modificar o animal ou a planta de maneira diferente do que se fazia na sua antiga região, porque é necessário procurar-lhe certas vantagens sobre um conjunto de concorrentes ou de inimigos muito diversos. Nada mais fácil que ensaiar assim, em imaginação, o procurar a uma espécie certas superioridades sobre uma outra; mas, na prática, é mais que provável que não soubéssemos o que teríamos a fazer. Isto só bastaria para nos convencer da nossa ignorância sobre as relações mútuas que existem entre todos os seres organizados; é uma verdade que nos é tão necessária como difícil de compreender. Tudo o que podemos fazer, é lembrar-nos a todo o momento que todos os seres organizados se esforçam continuamente por se multiplicar segundo uma progressão geométrica; que cada um deles em certos períodos da vida, durante certas estações do ano, no decurso de cada geração ou em certos intervalos, deve lutar pela existência e estar exposto a uma grande destruição. O pensamento desta luta universal provoca tristes reflexões, mas podemos consolar-nos com a certeza de que a guerra não é incessante na natureza, que o medo é desconhecido, que a morte está geralmente pronta, e que são os seres vigorosos, sãos e felizes, que sobreviverão e se multiplicarão.
Excertos de: DARWIN, Ch. A Origem das Espécies. E-book baseado na tradução de Joaquim da Mesquita Paul, publicada por Lello & Irmão – Editores, Porto, Ano 2003, cap. 3, pp. 90-92, acessado em: http://www.pdf-search-engine.com/a-origem-das-espécies-html-www.iedinet.com.br/eteca/darwin_a_origem_das_especies.html