A partir da revisão dos conceitos das teorias do Movimento Humano podemos sugerir que o entendimento das premissas filosóficas para uma teoria do movimento significa, acima de tudo, entende-lo, na “relação sujeito-mundo”, onde as ações do movimento e a intencionalidade desse modo de agir humano se misturam. A partir desta compreensão, Kunz (1999)* formula sua idéia sobre uma teoria do “se-movimentar” e, claramente, a distingue das teorias científicas anteriormente mencionadas, especialmente das que se valem de conceitos meramente físicos. A questão primordial para este estudioso, é que o ato de movimentar-se dos seres humanos é um fenômeno fundamental da vida, e uma existência sem movimento é impensável. Com isto, estudos que se ocupam com tal abrangência do Movimento Humano devem incluir, certamente, uma compreensão filosófico-antropológica da corporeidade. Para um entendimento fenomenológico do movimento humano, não poderíamos transformar-lo num simples e absoluto objeto de pesquisa, como ocorre quando a física ou mesmo a psicologia o estudam. Muito mais que isto, ele constitui um meio e uma precondição para as experiências objetivas na vida de pessoas.
Nesta perspectiva, de um “se-movimentar”, a conduta dos sujeitos em ação deve ser analisada como um acontecimento relacional e numa referência situacional-pessoal.
Trazido para uma única fórmula, poder-se-ia concordar com Trebels (2006), quando diz que se trata de uma “consciência-de-valor-na-realização”.
Mediante este ponto de partida, é possível desenvolver um estudo filosófico do movimento humano mais complexo e multidimensional do que nas análises anteriormente citadas. Esse estudo deverá abranger perspectivas antropológicas, fenomenológicas, sociológicas, estéticas e, inclusive, conhecimentos e teorias sobre a Linguagem.
Isto deve significar, também, que os estudos das abordagens físicas e mecânicas, como anteriormente apresentadas, não podem ser simplesmente abandonados em favor de uma abordagem filosófica. Importante, neste último enfoque, é o conhecimento que dele resulta sobre as diferentes concepções ou imagens de seres humanos, que se pode perceber nas diferentes interpretações do Movimento ou, como prefere Tamboer (1979), sobre as diferentes imagens de seres humanos subjacentes às imagens do movimento humano. Desta maneira, o melhor entendimento de um “se-movimentar” humano pode ser encontrado nos estudos de um “movimento próprio”, descoberto no significado existencial deste agir, na própria espontaneidade. Trata-se da relação sujeito-mundo e das relações de seres humanos nas dimensões espaço-temporais. Porém, numa perspectiva Dialética, não é possível fragmentar homem-mundo, tempo-espaço, mas encontrar esta “unidade primordial” (M. Ponty, 1976) de um “ser-estar-no-mundo”. Atualmente, grande parte das abordagens científicas, com seu racionalismo, desconsidera esta “unidade primordial” de homem-mundo quando separa sujeito do objeto. Uma teoria para o “se-movimentar” humano, desta forma, também não entende que movimento e percepção sejam duas categorias de ação independentes, e sim, coincidentes. Movimento e percepção são de efeitos mútuos. Como ressalta Merleau-Ponty, 2000, p.212 “A minha mobilidade é o meio de compensar a mobilidade das coisas, e, portanto de compreendê-las e sobrevoá-las. É por princípio que toda percepção é movimento”. Isto resulta, então, em sérias conseqüências sobre a compreensão das categorias tempo e espaço. Na experiência perceptiva vivemos fecundamente o fenômeno, fazemos isto espontaneamente. Vamos nos introduzindo no mundo, através de nossos sentidos, sem qualquer diferenciação ontológica ou epistemológica. O mundo perceptivo nos coloca diante de uma vida espontânea. Portanto, é preciso cuidado para não nos rendermos ao paradigma social objetivista vigente, para não desvalorizarmos o caráter relacional e criativo que é ponto fundamental do Movimento Humano. Assim, para a compreensão deste fenômeno, é preciso considerar aspectos sócio-culturais como danças, lutas, brincadeiras infantis e aspectos ontológicos como a percepção e linguagem, encontrando sentidos, contextualizando suas práticas e reinventando a cultura.
*kunz, Educação física: ensino e mudanças. Rio Grande do Sul: Ed.Unijuí, 1991.