E então, o que você anda fumando? Não se ofenda, não vai aí qualquer condenação moral.
O tema é a propósito de uma conversa que mantive dia destes com um homem que se queixava de sua situação financeira, que não lhe permite dar estudo para o filho, nem morar numa boa casa. E mais: que só trabalha, que anda de ônibus a vida toda, que nem dá pra comprar uma roupa nova...
É a queixa da média dos brasileiros. Por que me importo? Bem, o personagem é fumante (“a única alegria que ainda tenho”) e resolvi propor a ele uma brincadeira: fazer as contas do que ele fumou até aquele dia.
Como ele concordou, lápis e papel (nada como ver em concreto os números): são 3 carteiras por dia, a R$ 4,50 cada, há 30 anos. Ele confessa que fuma há mais tempo, mas faz 30 anos que passou a consumir 3 carteiras/dia. Fácil: 3 x R$ 4,50 = R$ 13,50/dia x 30 = R$ 405,00/mês x 12 = R$ 4.860,00/ano x 30 = R$ 145.800,00. O homem não acreditou! Fez e refez os cálculos e constatou, entre constrangido e assustado, que havia fumado a casa que desejava, a boa escola para o filho e alguns outros confortos que reclama não ter.
A conversa foi real mas o resultado, para mim, é uma metáfora.
Quantos de nós não estamos por aí, “fumando” nossos objetivos mais caros, “queimando” os caminhos que nos levariam ao que julgamos ser nossa felicidade?
Por que é que decidimos, numa certa quadra da vida, adotar hábitos e práticas que nos vão fazer mal, que nos trarão prejuízo certo?
É estranha a humanidade. Reclama mais tempo de vida. Que vida? A que ela própria está matando, abreviando, sucateando?
Assim somos nós, os racionais: tanta inteligência, tanta informação, e só temos lições a dar, nenhuma a apreender.
Não sei o que vai acontecer na vida do meu interlocutor. Ele me afiançou que deixaria de fumar no mesmo dia. Sugeri, então, que ele poupasse o dinheiro que iria gastar com cigarro; caso contrário não perceberia a vantagem concreta do abandono daquele que ele afirmara ser seu único prazer.
Fiquei tentando estabelecer um paralelo e me ocorreu que seria possível guardar o dinheiro de outros excessos: de comida, que vai assustar na balança, ou de bebida, que vai aflorar na hora de dirigir.
Talvez se pudesse poupar o que se gasta em combustível para percorrer caminhos curtos, que de carro se tornam longos trajetos para evitar contramão, semáforo, congestionamento até que se encontre uma vaga e então se gasta com a zona azul e se percebe que se está atrasado e que se tivéssemos vindo a pé seria muito mais rápido e econômico. Até o estresse seria menor (um ou outro motorista afoito tentaria passar sobre nós, ciosamente atravessando na faixa, mas a corridinha forçada comprovaria que as caminhadas têm de ser mais freqüentes).
Enquanto isto, os jornais noticiam que a área de plantação de fumo volta a crescer no país. Que só em Florianópolis são emplacados mensalmente 2.000 novos automóveis. Que a obesidade chegou às crianças e também às classes C e D.
Haverá uma escola que nos ensine a planejar nossa vida? Há um comercial de carro que começa com a pergunta: “E você, onde espera estar daqui a cinco anos?”. E mostra o desejo de cada um dos personagens. Só não explica o “como”.
Deveríamos criar nosso objetivo, estabelecer um deadline e, a partir daí, elaborar um cronograma com as ações que possam nos levar até o nosso podium particular.
Inexplicavelmente, preferimos usar nossa racionalidade para “fumar” nosso futuro.